sábado, 4 de maio de 2013

Ser normal nunca foi o meu forte!

 


Acho que nunca o disse a ninguém, mas o principal motivo porque decidi ter o meu filho foi sentir-me sozinha. Toda a vida me senti assim, sempre rodeada de pessoas, mas inevitavelmente só.
 
Sou silenciosa e gosto dos meus silêncios. Se não tenho nada de interessante para dizer não falo só para que ouçam a minha voz. Outras vezes quero falar, mas decido não o fazer porque é um direito que me assiste. Sinto-me confortável com os meus silêncios, mas eles assustam os outros. Não entendem porque sou assim e afastam-se, fico desiludida, mais comigo do que com os outros, mas não posso evitá-lo, eu sou assim.

Quando era pequena adorava a história da Sereiazinha e há uma frase desta que me ficou para sempre gravada na memória: “Ele lerá nos teus olhos o que estás a sentir sem haver necessidade de palavras”. Apesar desta frase ser o motivo de toda a desgraça na história, acho que me convenci que seria assim. Talvez também seja um bocadinho autista.

Quando soube que estava grávida, apesar de todos os contras [que não eram poucos!], não tive dúvidas que iria nascer uma parte de mim que colmataria essa lacuna. Alguém que me compreenderia, acompanharia os meus silêncios e me amaria incondicionalmente. Foi com esta convicção que, contra todas as expectativas e diagnósticos, operei o milagre de dar a vida ao meu filhote.

Esqueci-me que as pessoas nem sempre têm os mesmos interesses e os meus silêncios foram substituídos por conversas intermináveis sobre zebras e dromedários, sobre marcas de automóveis e personagens de desenhos animados, repetidas em looping, vezes sem conta, com poucas ou nenhumas variações de conteúdo, com pouca ou nenhuma reciprocidade.

Os últimos anos mostraram-me de que forma uma decisão, tomada em minutos, condiciona toda uma vida. Não me interpretem mal, nunca me arrependi. Se tivesse a oportunidade de repetir tudo a resolução seria a mesma, não mudava nada.
 
Sempre pensei que o marco em que atingiria o meu limite seria o momento em que me arrependesse da decisão tomada e esta certeza distraiu-me. O meu limite já foi ultrapassado há muito tempo. Hoje sei que o que consegui não foi sentir-me acompanhada, mas sim morrer para viver a vida de outra pessoa, de um pequeno pedaço de mim própria, que nunca vai ser totalmente autónomo.
 
E, o mais estranho, é que continuo a não mostrar sinais de remorso. O mais bizarro é que me sinto em paz, capaz de retirar felicidade das situações mais insólitas e estou mais sozinha do que nunca.

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