Acho que nunca o disse a ninguém, mas o
principal motivo porque decidi ter o meu filho foi sentir-me sozinha. Toda a
vida me senti assim, sempre rodeada de pessoas, mas inevitavelmente só.
Sou silenciosa e gosto dos meus
silêncios. Se não tenho nada de interessante para dizer não falo só para que
ouçam a minha voz. Outras vezes quero falar, mas decido não o fazer porque é um
direito que me assiste. Sinto-me confortável com os meus silêncios, mas eles
assustam os outros. Não entendem porque sou assim e afastam-se, fico
desiludida, mais comigo do que com os outros, mas não posso evitá-lo, eu sou
assim.
Quando era pequena adorava a história
da Sereiazinha e há uma frase desta que
me ficou para sempre gravada na memória: “Ele
lerá nos teus olhos o que estás a sentir sem haver necessidade de palavras”.
Apesar desta frase ser o motivo de toda a desgraça na história, acho que me
convenci que seria assim. Talvez também seja um bocadinho autista.
Quando soube que estava grávida, apesar
de todos os contras [que não eram poucos!], não tive dúvidas que iria nascer
uma parte de mim que colmataria essa lacuna. Alguém que me compreenderia,
acompanharia os meus silêncios e me amaria incondicionalmente. Foi com esta
convicção que, contra todas as expectativas e diagnósticos, operei o milagre de
dar a vida ao meu filhote.
Esqueci-me que as pessoas nem sempre
têm os mesmos interesses e os meus silêncios foram substituídos por conversas
intermináveis sobre zebras e dromedários, sobre marcas de automóveis e personagens
de desenhos animados, repetidas em looping,
vezes sem conta, com poucas ou nenhumas variações de conteúdo, com pouca ou
nenhuma reciprocidade.
Os últimos anos mostraram-me de que
forma uma decisão, tomada em minutos, condiciona toda uma vida. Não me
interpretem mal, nunca me arrependi. Se tivesse a oportunidade de repetir tudo
a resolução seria a mesma, não mudava nada.
Sempre pensei que o marco em que
atingiria o meu limite seria o momento em que me arrependesse da decisão tomada
e esta certeza distraiu-me. O meu limite já foi ultrapassado há muito tempo. Hoje
sei que o que consegui não foi sentir-me acompanhada, mas sim morrer para viver
a vida de outra pessoa, de um pequeno pedaço de mim própria, que nunca vai ser
totalmente autónomo.
E, o mais estranho, é que
continuo a não mostrar sinais de remorso. O mais bizarro é que me sinto em paz,
capaz de retirar felicidade das situações mais insólitas e estou mais sozinha
do que nunca.

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