segunda-feira, 18 de março de 2013

As palavras que nunca te direi...


"Se eu te pudesse dizer o que nunca te direi!
Tu terias que entender aquilo que nem eu sei."
Fernando Pessoa


Já vos aconteceu quererem muito dizer algo a uma pessoa, mas não o fazerem por recearem ser mal interpretados? Pois é exactamente como me sinto há já algum tempo. Então tive uma epifania e pensei: Bolas, mas afinal eu tenho um blog para quê? Não é para isto que serve este espaço? Para falar sem inibições, sem receio de ser julgada, mal avaliada? Sem precisar de pesar as palavras? De me conter? É claro que sim! Por isso, cá vai…

Disse-vos há dias que li um livro arrebatador, no qual reconheci cada data, cada sítio, cada sensação e ainda hoje não sei explicar a impressão que me deixou. Recordam-se, não é verdade? Pois, o que eu não vos contei é que conheço pessoalmente o autor desse livro!

Não quero com isto dizer que sejamos grandes amigos e que vivemos juntos a história que ele escreveu, na verdade só o fiquei a conhecer realmente depois de a ler. Até então ele era apenas um conhecido de longa data, apenas isso: alguém que encontrei há quase 20 anos e que revia com pouca regularidade {e nenhuma intimidade}. Idades próximas, alguns amigos comuns e a viver na mesma {pequena} comunidade. Apenas isso!

Soube, há algum tempo, que ele tinha escrito um livro e, por alto, a história {verídica} que contava. Exactamente por conhecer o seu teor, resisti muito a lê-lo. Parecia uma história tristonha, sobre perda, dor e saudade, e este tipo de narrativa deixa-me sempre com uma sensação de vazio e de impotência contra o inevitável.

Descobri, também, que tem um blog, comecei a visitá-lo e verifiquei que ele escreve divinalmente bem… Cada palavra que redige, cada frase que compõe, parece tocar-nos directamente na alma… Recolhi pedacinhos soltos da história, mas como os captava desenquadrados do todo, pareciam-me monótonos e sombrios. A minha aversão pelo livro crescia e, em proporção paralela, a minha curiosidade aumentava.

Mas deixemo-nos de preâmbulos, pois como já sabem, acabei por lê-lo! Bom, “lê-lo” talvez não seja a palavra mais acertada, porque eu, literalmente, devorei 200 páginas em poucas horas. Simplesmente, não consegui parar…

O que vos posso dizer? Não se trata de um livro “comercial” capaz de se tornar num bestseller, não porque esteja mal escrito, mas porque a história é extraordinariamente pessoal. Talvez por conhecer quem a escreveu e saber tratar-se de uma história verídica, a leitura foi ainda mais brutal do que inicialmente imaginei, mais forte do que tudo o que li até agora.

Vale pela forma dissimulada {sem sentido pejorativo} como o autor nos revela os seus sentimentos e se expõe a si próprio. Nunca, em tempo algum, será possível, unicamente através de uma conversa com ele, captar a sua intensidade e a clareza da sua alma. Já ouvi, inclusive, compararem-no com uma espécie de Apolo de pedra {porque ele é, simplesmente, LINDO DE MORRER}. Lindo por fora, oco por dentro! É assim que o vê quem o conhece mal. Era assim que eu o via antes de ler o que ele escreveu. Na verdade, ele é… sincero, leal, simples, preocupado, arrebatado, apaixonado, inteligente, sensível e, sobretudo, é a única pessoa que conheço capaz de deixar uma marca impressa, de forma definitiva, na alma de quem o ouve com atenção…

Confesso que esta constatação me deixou inquieta, porque me recordou o pouco esforço que fazemos para realmente conhecer os outros e das oportunidades que perdemos por agir assim. Rodeamo-nos de pessoas vazias com quem só podemos contar nos momentos bons e rejeitamos aqueles que não entendemos com facilidade, pela sua profundidade, e que nos poderiam realmente valer quando necessitamos de apoio. E falo com conhecimento de causa, porque perdi a conta ao número de pessoas que desapareceram da minha vida ao saberem que o meu filho era diferente das outras crianças…

Deixou-me, também, muito confusa, num vórtice de emoções contraditórias, de dúvidas e com uma crescente impressão de urgência e perplexidade. Sentia-me apaixonada por uma fantasia. Para que me entendam melhor, vou explicar de outra forma: Sempre consegui ver a minha vida como um mapa. Cada causa, cada efeito. Sempre percebi, com clareza, o peso de cada escolha para chegar onde estou. Com este livro divisei, pela primeira vez, a interligação de todos os acontecimentos do meu “mapa” e compreendi que tinha desperdiçado demasiado tempo com trivialidades, sem nunca me deter naquilo que é realmente importante, e agora era demasiado tarde. Esta constatação deixou-me triste e desanimada, pela primeira vez em muito tempo.

Então, perguntei a mim mesma: Porque tem esta prova que ser diferente se eu já sobrevivi a dúvidas bem mais inquietantes? Simplesmente, não tem que ser diferente.

Como sou uma pessoa optimista por natureza, agarrei-me a uma réstia de luz e então consegui ver, com toda a clareza, aquilo que a vida me queria mostrar… Antes de mais, deixem-me que vos diga que descobri que tenho uma capacidade {quase sobrenatural} de transformar a escuridão em claridade. Uma espécie de dom que me permite retirar de todas as situações, até das mais negras, uma lição. Absorvo todos os ensinamentos, mesmo quando testada até ao limite, e diviso em todas as experiências um conhecimento que me fica gravado na alma de forma indelével. Viver é aprender e nunca é demasiado tarde para fazê-lo! A simplicidade desta constatação é esmagadora. E, não posso deixar de pensar, que teria conseguido chegar lá sozinha, se tivesse prestado mais atenção aos sinais, se tivesse aberto mais cedo o meu coração.

Ao iniciar este post disse que pretendia transmitir algo a alguém. Portanto, este post destina-se apenas a um leitor, o escritor do livro que me proporcionou uma viagem ao centro de mim própria e a quem enviei um comentário {muito filtrado} que não faz jus a tudo o que gostaria de lhe dizer. Muito obrigada simplesmente por existires! Se não o alcançar, não faz mal, as almas não precisam de ouvir! Eu posso partilhar, mesmo sem reciprocidade, e esperar ser compreendida…

Sem comentários:

Enviar um comentário