É inacreditável aquilo que algumas pessoas dizem e, mais grave, escrevem em meios de comunicação lidos em massa. Há dias li um artigo que comparava crianças hiperactivas com crianças mal-educadas, de uma forma completamente leviana. Posso dizer-vos, por experiência própria, que não há como confundir falta de educação com hiperactividade (PONTO FINAL).
Uma criança, dita normal, não apresenta distúrbios associados como pouca visão ou audição, convulsões, distúrbios de sono, problemas de interacção social, dificuldade em prestar atenção e aprender, incapacidade de filtrar emoções e estímulos, agressividade e mau humor constante.
Não se pode simplesmente comparar um estado de irritação exponencial numa criança hiperactiva com uma birra feita por falta de educação. Quem já assistiu a uma “birra” de um hiperactivo percebe o que eu quero dizer. Uma criança hiperactiva não chora, grita até ficar sem voz. Soluça até ficar sem ar. Não consegue estar quieta em situação absolutamente nenhuma, nem a dormir. Quando lhe dizem não, fica irritada, não por não entender o porquê, mas simplesmente por frustração.
O dito artigo falava também da questão da medicação, estabelecendo um paralelo entre as crianças medicadas e as malcomportadas. Referia-se ao aumento exponencial do número de crianças a quem são prescritos medicamentos para controlar a hiperactividade e o real crescimento da doença.
Facto #1: Vivemos num planeta poluído e a poluição altera o funcionamento dos organismos. Aumentaram os casos de hiperactividade, é verdade! Tal como aumentaram os casos de cancro, de doenças respiratórias,... “Somos o que comemos” e o que comemos está contaminado. O que respiramos está contaminado. Até a fruta e os legumes têm, em muitos casos, mais produtos químicos do que vitaminas. Desde que somos concebidos estamos expostos a todo o tipo de agressões. Portanto, parece-me bastante natural que hajam consequências no modo como os nossos sistemas funcionam e interferências nas substâncias que os nossos organismos produzem.
Facto #2: A medicação substitui a substância que nos permite manter a concentração e que não é produzida pelos hiperactivos. O nosso cérebro fabrica uma substância que nos permite prestar atenção ao que nos rodeia e manter a concentração. Nos hiperactivos essa substância, a dopamina, não é produzida, ou é-o em quantidades insuficientes. O papel da medicação é substituir sinteticamente a dopamina, permitindo, apenas durante o seu período de actuação (que varia entre 4 e 12 horas), centrar a atenção. Questão: O que acontece se duplicarmos a quantidade de substância que nos permite focar a atenção? Pois é, não nos conseguimos concentrar e ficamos “hiperactivos”…
Facto #3: A medicação para a hiperactividade é constituída APENAS por estimulantes e NUNCA por calmantes. E perguntam vocês: Qual é o efeito de um estimulante numa criança mal-educada? Pois… má educação com turbo!
Que fique claro de uma vez por todas: a hiperactividade é uma perturbação muito grave que afecta a família de forma permanente, mas, principalmente, que condiciona a vida da criança, ao nível social, ao nível da aquisição de competências e da sua aprendizagem. Os sinais são muito evidentes, as disparidades abissais, basta pararmos e olharmos um minuto para percebermos a diferença. Portanto, POR FAVOR, parem de comparar hiperactivos com crianças malcomportadas. E, se não me fiz entender, só vos posso dizer que ADORAVA ter um filho mal-educado!
Adorei ler o seu artigo e sei do que fala, a minha filha é hiperactiva, mas não é mal-educada, infelizmente as pessoas tendem a dizer que são mal-educados, mas é a sociedade que temos. Obrigado pelo seu artigo. Anabela
ResponderEliminarEu é que agradeço... um abraço e força!
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